ÁGUAS SUBTERRÂNEAS EM PORTUGAL
Fonte: SNIRH - Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos
O mundo, vive uma crise de água à escala global. Há milhões de pessoas sem acesso a água potável e, lugares do mundo, que hoje assumem a água como um dado adquirido, caminham a passos largos para uma situação de escassez devido às alterações climáticas. Algumas guerras do presente e e muitas das guerras do futuro serão travadas, não por causa do petróleo, mas por causa da água. É urgente desenvolver uma nova cultura que coloque a água na primeira linha da agenda: a água acima de tudo!
Portugal está na linha da frente dos países que irão sofrer cada vez mais com a escassez de água, como ficou dramaticamente assinalado pela seca que nos assolou em 2017. Secas extremas irão fazer parte do nosso futuro e é necessário aprofundar o conhecimento dos nossos recursos hídricos, de forma a permitir uma gestão cada vez mais eficaz da água e, por natureza de razão,uma gestão mais eficaz do nosso ordenamento territorial. Por isso, irei hoje falar de águas subterrâneas em Portugal.
A distribuição dos recursos hídricos subterrâneos em Portugal continental está intimamente relacionada com as acções geológicas que moldaram o nosso território. O país encontra-se dividido em quatro grandes Unidades Hidrogeológicas: Maciço Antigo; Orla Ocidental; Bacia Tejo-Sado; Orla Meridional.
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| Portugal encontra-se dividido em quatro grandes unidades hidrogeológicas |
Cada uma dessas Unidades Hidrogeológicas, está dividida em diversos Sistemas Aquíferos, embora haja zonas dentro dessa Unidades onde não foi definido qualquer Sistema Aquífero. Isso não significa a inexistência de aquíferos, mas apenas que têm pequena importância de carácter local ou onde, eventualmente, poderá existir insuficiente conhecimento para a sua caracterização. Um Sistema Aquífero, é um domínio espacial limitado em superfície e em profundidade, onde existem vários aquíferos que podem estar ou não relacionados entre si e que pela sua dimensão constituem uma unidade prática de investigação e exploração.
O Maciço Antigo, (também designado por Maciço Ibérico ou Maciço Hespérico), é constituído fundamentalmente por rochas eruptivas e metassedimentares, dispõe, em geral, de poucos recursos, embora se assinalem algumas excepções, normalmente relacionadas com a presença de maciços calcários. Esta Unidade Hidrogeológica, dispõe em geral de poucos recursos e está subdividida em 10 sistemas aquíferos, cujo suporte litológico é constituído, maioritariamente, por calcários, quartzitos e gabros paleozóicos, depósitos de idade terciária e terraços e cascalheiras que ocupam depressões instaladas no soco antigo.
A figura abaixo, mostra a distribuição dos 10 sistemas aquíferos do Maciço Antigo
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| Distribuição dos 10 sistemas aquíferos do Maciço Antigo |
A
Orla Mesocenozóica Ocidental - abreviadamente designada por Orla Ocidental - está subdividida em 27 sistemas aquíferos individualizados em que as principais formações aquíferas são constituídas por:
- rochas detríticas terciárias e quaternárias (areias, areias de duna, terraços, aluviões, etc.)
- arenitos e calcários cretácicos
- calcários do Jurássico
A figura abaixo, mostra a distribuição espacial dos 27 sistemas aquíferos da
Orla Ocidental
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Distribuição espacial dos sistemas aquíferos da Orla Ocidental
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A
Bacia Terciária do Tejo e do Sado - abreviadamente designada por
Bacia Tejo-Sado, está subdividida em 4 sistemas aquíferos
onde as formações mais produtivas e que constituem o suporte dos sistemas são:
- formações quaternárias (aluviões e terraços)
- formações terciárias, fundamentalmente pliocénicas e miocénicas (Grés de Ota, Calcários de Almoster, Série greso-calcária, etc.)
A figura abaixo, mostra a distribuição dos 4 sistemas aquíferos da
Bacia Tejo-Sado
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| Distribuição espacial dos 4 sistemas aquíferos da Bacia Tejo-Sado |
A
Orla Mesocenozóica Meridional - abreviadamente designada por
Orla Meridional - está subdividida em 17 sistemas aquíferos, onde as principais litologias que constituem o suporte desta unidade são:
- formações plioquaternárias (areias e cascalheiras continentais, areias de duna, etc.)
- formações miocénicas, fundamentalmente de fácies marinha
- formações detríticas e carbonatadas cretácicas
- formações calcárias e dolomíticas do Jurássico.
A figura abaixo, mostra a distribuição espacial dos 17 sistemas aquíferos da
Orla Meridional
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| Distribuição espacial dos 17 Sistemas Aquíferos da Orla Meridional |
De acordo com o Jornal Público de 22 de Novembro de 2017, existem em Portugal cerca de 60.000 captações superficiais e subterrâneas licenciadas (1 captação a cada 1,5 kms2) e só entre os dia 1 de Junho e 30 de Setembro de 2017, foram realizadas 3467 novas captações de água subterrânea (30 captações por dia) e regularizadas 1769 já existentes
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Aos números evidenciados pelo Jornal Público, eu acrescento que, haverá muitos mais milhares de captações de água subterrânea realizadas ao longo dos anos em Portugal sem o devido licenciamento. Mas mais grave ainda, são as sondagens realizadas com licenciamento, com todas as formalidades cumpridas, mas cujo relatório entregue à respetiva entidade licenciadora - ARH (Administração Região Hidrográfica), poderá não corresponder à verdade ou, no mínimo, estar tecnicamente mal elaborado. Para além disso, a estrutura em subsuperfície da sondagem de captação, não é visível e pode facilmente não corresponder aos parâmetros inicialmente determinados.
Esta situação deve-se a dois fatores fundamentais: carência de Recursos Humanos nas Regiões Hidrográficas, capazes de aprofundar os níveis de investigação e de fazer uma verdadeira fiscalização em tão elevado número de captações e ainda, devido à "desvalorização" dos profissionais de Geologia, que existe em muitas empresas de sondagens de captação de águas subterrâneas.
O resultado é que, para além das sondagens institucionais (Câmaras, ou algumas empresas com rigorosos cadernos de encargos, nomeadamente empresas de águas termais), que tiveram uma adequada fiscalização e acompanhamento técnico, em muitas outras sondagens, é difícil conseguir confiar nos seus relatórios, porque podem não corresponder à verdade.
Este é um tema que deveria estar no topo das preocupações dos responsáveis políticos e organizações cívicas e ambientais porque, na realidade, ninguém sabe ao certo quantas sondagens de captação de água existem em Portugal e muito menos qual é a qualidade e a quantidade de água subterrânea consumida anualmente.
É certo que existem no SNIRH (Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos) várias centenas de pontos onde é feita a monitorização da quantidade e qualidade das águas subterrâneas. Mas há um longo caminho a percorrer na gestão dos recursos hídricos subterrâneos, para atingirmos um patamar compatível com a dimensão problema que estamos a enfrentar.
Porque o nosso problema, "não será nunca", petróleo a mais, mas será certamente, água a menos!!