VAMOS FALAR DE ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS
EM BUSCA DA TEMPERATURA PERDIDA
INTRODUÇÃO
Antes de mais, importa enquadrar alguns conceitos, que nos ajudem a sintetizar o complexo significado da expressão "alterações climáticas".
De acordo com o artigo 1 da Convenção-Quadro das Alterações Climáticas das Nações Unidas (Framework Convention on Climate Change - UNFCCC), as alterações climáticas são definidas como "uma mudança climática que é atribuída, direta ou indiretamente, à atividade humana, que altera a composição da atmosfera global e que é adicional à variabilidade climática natural, ao longo de períodos de tempo comparáveis".
Importa, por isso, salientar que a UNFCCC faz uma distinção entre as alterações climáticas atribuíveis à atividade humana, devido a alterações na composição atmosférica e à variabilidade climática atribuível a causas naturais. Ou seja, as alterações climáticas são devidas a forças externas "external forcings", que podem ser processos internos naturais (alterações da órbita da Terra à volta do Sol, erupções vulcânicas, mudanças na circulação dos oceanos... ou, a mudanças antropogénicas persistentes na composição da atmosfera ou no uso da terra, nomeadamente a gases com efeito estufa ou a aerossóis.
Para esta complexa equação, é necessário introduzir também os efeitos ou "feedbacks" internos do sistema, que podem ser positivos - o desaparecimento do gelo, (albedo), o derreter do solo "permafrost", o vapor de água, a destruição das florestas..., ou negativos - o aumento da nebulosidade, a erosão química das rochas ou o aumento da precipitação...
Assim, os "feedbacks" internos do sistema, podem amplificar ou diminuir as forças externas "external forcings" e ajudar-nos a determinar a sensibilidade climática ou o futuro do nosso clima.
Sensibilidade climática ou "climate sensitivity" é o termo usado pelo Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) para expressar a relação entre as emissões causadas pelo ser humano que aumentam o efeito estufa - dióxido de carbono e uma variedade de outros gases de efeito estufa - e as mudanças de temperatura que resultam dessas emissões. Resumidamente, este conceito procura responder a uma questão fundamental: qual será o valor das mudanças de temperatura, se duplicarmos a quantidade de gases com efeito estufa na atmosfera.
Em suma, podemos afirmar que o sistema climático é regido pela interação de dois fluídos turbulentos que são dominados por circulações irregulares, que trocam calor entre si e exercem tensão uns sobre os outros: os oceanos e a atmosfera.
Há, portanto, muitas perguntas em busca de resposta, neste complexo sistema de equações climáticas: Será que existe um saldo positivo ou negativo nos múltiplos "feedbacks" ou efeitos climáticos?
Será que as causas são essencialmente naturais, ou são sobretudo causadas pela ação humana?
Qual é a sensibilidade climática do nosso planeta?
Antes de prosseguirmos com o desenvolvimento deste texto, é necessário retirarmos da equação uma falácia que, de alguma forma, tem contaminado o debate público sobre as alterações climáticas: "97% de cientistas concordam com a primazia dos efeitos antropogénicos do clima".
O cientista social John Cook da Universidade de Queensland na Austrália, analisou a evolução do consenso científico sobre o aquecimento global antropogénico na literatura científica, e examinou 11.944 resumos de publicações científicas sobre o clima, entre 1991 e 2011, tendo chegado às seguintes conclusões:
- 66,4% dos resumos, não expressaram opinião sobre o aquecimento global antropogénico;
- 32,6% expressaram uma opinião sobre o aquecimento global antropogénico,
Entre os 32,6% que expressaram posição sobre o aquecimento global antropogénico, 0,7% rejeitaram a influência humana no aquecimento global, 0,3% não tinham a certeza das causas do aquecimento global e 97,1% expressam uma posição de consenso de que os seres humanos são a causa primeira do aquecimento global. Ou seja, dos 11.944 resumos científicos analisados, houve 31,6% de consenso de que o aquecimento global se deve sobretudo à ação humana.
Depois, foi só lançar o rastilho: com base nesta informação, Barak Obama publicou no twitter para os seus 31 milhões de seguidores que, 97% dos cientistas concordam com o aquecimento global antropogénico e, rapidamente o Aquecimento Global Antropogénico se tornou na "religião oficial" das Nações Unidas.
Podemos aqui, utilizar uma metáfora política eleitoral: houve 65% de abstenções e o partido vencedor, teve uma vitória esmagadora com 97% dos votos, mas que, na realidade, só correspondem a 32% dos eleitores.
Agora que esta questão ficou clarificada, podemos afirmar que, de um modo geral, a comunidade científica (cépticos e consensuais) reconhece que o planeta Terra está a atravessar um período de variabilidade climática e que, as ações antropogénicas, fazem parte desta equação.
Mas não é aqui que se centra o debate. O debate centra-se, sobretudo, no grau de influência do ser humano nessas alterações climáticas! Neste contexto, é importante compreender o seguinte: ao contrário de muitas outras ciências, a evolução climática ao longo de um período alargado de tempo, não pode ser demonstrada em laboratório e por isso assenta em complexos modelos de previsão com múltiplas variáveis que, naturalmente, incluem os gases com efeito estufa produzidos pelo ser humano, nomeadamente o CO2. Dependendo da "força" que se dá a cada uma dessas variáveis dentro dos modelos existentes, assim será diferente o "resultado" para a evolução do clima.
A verdade é que, ao longo de todo o século XX, a temperatura não aumentou constantemente, mas sim em intervalos irregulares:
1910 - 1940, são anos marcados por uma tendência distinta de aquecimento
1945 - 1970, houve uma ligeira tendência de arrefecimento
1970 - 1998, houve uma tendência de aquecimento acentuado e, finalmente
Século XXI, não há qualquer tendência clara de aquecimento
E é neste ponto, que se desenvolve o verdadeiro debate climático. Onde estão os verdadeiros contributos para as alterações climáticas? Qual é a sensibilidade climática do nosso Planeta?
Cientistas como Nir Shaviv , Professor de Física da Universidade Hebraica de Jerusalém, afirma que os gases antropogénicos têm um papel muito menos importante no aquecimento global do que aquele que é normalmente considerado e afirma que a sensibilidade climática da Terra é inferior à que é incorporada nos modelos do IPCC. Ele afirma que a sensibilidade climática (aumento da temperatura que resulta da duplicação do CO2) varia entre 1º e 1,5º C enquanto que os modelos do IPCC consideram valores entre 1,5º C e 4,5º C o que não é compatível com a realidade observada.
Nir Shaviv considera que o Sol é a principal variável para as alterações climáticas e, em 2018, numa audição perante Bundestag (parlamento alemão) apresentou o gráfico acima sobre o qual fez a seguinte declaração: " Este é um dos gráficos mais importantes para o debate climático e que o IPCC tem siplesmente ignorado. Publicado em 2008, podemos observar uma clara correlação entre a taxa de variação do nível do mar e a atividade solar. Isso prova, sem sombra de dúvida, que o Sol tem um grande efeito sobre o clima. Mas esse facto é ignorado!"
EM BUSCA DA TEMPERATURA PERDIDA
No "Quinto Relatório de Avaliação do IPCC" publicado em 2013, foi apresentado um gráfico (abaixo representado) onde são reveladas as discrepâncias entre os valores de aumento da temperatura que resultam dos modelos do próprio IPCC e aqueles que têm sido, de facto observados.
Este gráfico, compara as tendências das temperaturas verticais tropicais (até aos 50 mil pés) dos modelos do IPCC, com as observações de leituras reais feitas através de satélites e balões atmosféricos, entre os anos de 1979 e 2010.
Aqui, podemos observar curvas com 3 cores diferentes:
As curvas vermelhas mostram o intervalo da tendência das temperaturas dos modelos do IPCC que incorporam os gases com efeito estufa.
As curvas azuis, mostram o intervalo da tendência de temperaturas dos modelos do IPCC que não incorporam os gases com efeito estufa.
As curvas cinzentas, mostram os intervalos de leituras reais que foram observados.
O que é relevante neste gráfico é a falta de sobreposição entre o modelo que incorpora os gases com efeito estufa (vermelho) e os valores observados (cinzento); enquanto que, o modelo que não incorpora os gases com efeito estufa (azul) sobrepõe-se, quase completamente com os valores observados.
Com base na análise deste gráfico, o Cientista John Christy, Professor de Ciência Atmosférica da Universidade do Alabama em Huntsville reformulou/simplificou a informação que foi apresentada ao Congresso Americano em 2016 através do gráfico seguinte.
Neste gráfico, podemos observar curvas de 3 cores diferentes que avaliam informação climática entre 1979 e 2016
A curva vermelha mostra que, de acordo com os valores médios previstos por 102 modelos diferentes, a temperatura deveria ter subido 1º C entre 1979 e 2016.
A curva azul, mostra os valores observados por satélites nesse intervalo de tempo
A curva cinzenta mostra os valores das leituras de balões atmosféricos e a sua confirmação por entidades científicas independentes.
O que resulta de mais relevante neste gráfico é que, nesse intervalo de tempo, os modelos climáticos previam uma subida de 1º C, enquanto que os valores observados registam um aumento da temperatura global de 0,5º C.
Como é fácil de perceber, estes factos são muito significativos na avaliação da sensibilidade climática do Planeta.
E é aqui que surge a pergunta: o que aconteceu à temperatura perdida?
Saliento que, os cientistas consensuais, não contestam esta informação e, por isso, procuram respostas científicas para estas discrepâncias dos modelos
O Cientista consensual Tom Wigley, Professor de Climatologia e Ciências do Ambiente da Universidade de Adelaide, defende que não há discrepâncias fundamentais entre os modelos climáticos e as observações e considera que essas discrepâncias se devem sobretudo a variações na circulação oceânica e às trocas de calor nas camadas superiores dos oceanos: quanto maior é o calor absorvido pelos oceanos, menor é o calor da atmosfera.
Através deste gráfico, (1850 - 2020) ele justifica que o aquecimento entre 1910 e 1945 foi devido a uma diminuição da circulação vertical dos oceanos e que, a estabilização do século XXI é devida a um aumento da circulação vertical dos oceanos.
Por outro lado, Tom Wigley considera que, entre esses dois eventos, houve pouca alteração na circulação dos oceanos e que a estabilização/ligeiro arrefecimento que ocorreu entre 1945 e 1975, foi causada por um efeito compensador do arrefecimento (feedback negativo) provocado pela emissão de aerossóis para a atmosfera; e que o aumento de temperatura registado entre 1975 e o final do século XX foi devido às emissões controladas de SO2 (dióxido de enxofre) para a atmosfera e à consequente falta de compensação de arrefecimento provocada pela emissão de CO2.
No gráfico, Tom Wigley assinala também momentos de redução da temperatura que correspondem a uma atividade vulcânica relevante (setas azuis) e um pique de temperatura em 1997 -98, resultado do comportamento da corrente marítima El Niño.
PARA TERMINAR
O mundo vive quotidianamente sobre agressões permanentes: É a sobre-exploração dos solos; são os pesticidas e os fertilizantes; é a produção de algodão para satisfazer as modas do nosso quotidiano (a produção de uma simples tshirt, consome mais de 2 mil litros de água); é a perda de biodiversidade...
Todos os anos, milhões de toneladas de plástico vão parar aos nossos oceanos e, ao mesmo tempo que abalam a cadeia alimentar, introduzem microplásticos na alimentação humana, com todas as consequências previsíveis ao nível da saúde pública. Só a Coca-cola, a quem o mundo presta vassalagem todos os dias, produz anualmente 120 mil milhões de garrafas de plástico, das quais, menos do que 10% são recicladas.
Em 2017, só a floresta Amazónica perdeu 1,2 mil milhões de árvores para a produção de gado, produção de óleo de palma e para a tão amada soja utilizada na alimentação vegan e na produção de biocombustíveis. A quantidade de árvores perdidas nesse ano na Amazónia, corresponde à capacidade de absorção de CO2 da indústria Americana.
Só na Índia, há 300 milhões de pessoas sem electricidade e que cozinham com lenha dentro de suas casas, contribuindo, anualmente, para quase 10 milhões de mortes prematuras por intoxicação devido à inalação de gases.
5,5 mil milhões de pessoas que vivem no mundo em desenvolvimento, emitem 5 vezes menos CO2 do que 1,5 mil milhões de pessoas que vivem no mundo desenvolvido. Será que temos que ser todos pobres para salvar o planeta?
Esta é uma questão que vai muito para além do clima. Esta é uma questão com profundas raízes económicas, sociais e políticas e que, muitas vezes, se revestem de interesses que vão muito para além das imaginações mais férteis das pessoas comuns. Tudo o que acontece hoje no Planeta parece ser devido às alterações climáticas e, um destes dias, até a violência doméstica terá como primeira causa o aquecimento global.
A ciência não é uma democracia. Ser consensual com o consenso, não torna a ciência nem mais, nem menos verdadeira. A ciência é feita sobre uma dúvida e sobre um questionamento permanente.
Não posso deixar de referir uma nuance que verifiquei no estudo que tenho vindo a realizar sobre estas matérias. Muitos cientistas consensuais, consideram que a única forma de prevenir os impactos do CO2 nas alterações climáticas é um forte investimento na energia nuclear!!!
Desde sempre, o Homo sapiens foi um agressor ambiental e poucas dúvidas existem que é também causador de alterações climáticas! No entanto, a ciência climática, reveste-se de uma complexidade que está longe de estar resolvida/compreendida. Políticos, ambientalistas, jornalistas... todos querem dar uma dentada no filão do "aquecimento global" para gáudio dos lobbies alternativos aos combustíveis fósseis. Fica-se bem na fotografia: dá votos, dá dinheiro à investigação, a ONGs ambientalistas e ajuda a vender notícias. Por isso, eu não posso concordar com a da expressão "emergência climática"! Se queremos ser intelectualmente honestos, então deveríamos utilizar a expressão "emergência ambiental"!
Vivemos um momento singular na nossa história. Hoje somos cerca de 7,7 mil milhões de habitantes na Terra e em 2050 seremos cerca de 9 mil milhões. Todos ávidos de energia!
A ciência não se faz em posts de 3 linhas e muitos likes no FB. A pior coisa que se pode fazer, é tomar decisões políticas assentes em pressupostos que poderão não corresponder à verdade científica.
Acredito na ciência, na tecnologia e na capacidade do ser humano se reinventar. Por isso , é absolutamente necessário despolitizar o debate e apoiar a investigação fundamental de base, sobre as dinâmicas do clima!







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